
Inadimplência da carteira de crédito livre às famílias chega a 8%
O BC informou 8,0% em agosto. Entenda por que a taxa mede saldos de operações em atraso e não a parcela de famílias inad...
Em 29 de setembro de 2026, o Banco Central informou que a inadimplência do crédito com recursos livres para famílias chegou a 8,0% em agosto. Esse número não significa que 8 em cada 100 famílias brasileiras estavam inadimplentes. Ele compara o saldo de certas operações vencidas há mais de 90 dias com o saldo total da carteira de crédito livre correspondente.
A diferença entre saldo e pessoas muda a leitura da manchete. O cálculo é ponderado pelos valores das operações: dívidas de tamanhos diferentes têm pesos monetários diferentes. Uma pessoa pode ter mais de uma operação; e o mesmo percentual não informa quantos contratos, clientes ou domicílios compõem os saldos.
Na mesma nota, o BC registrou 6,0% de inadimplência no crédito total às pessoas físicas e 3,6% no crédito direcionado às famílias. São recortes de carteira diferentes. A taxa de 8,0% refere-se especificamente ao crédito livre para famílias, em agosto de 2026.
Nota publicada em 29 de setembro com dados de agosto
A Nota para a Imprensa de Estatísticas Monetárias e de Crédito, publicada em 29/09/2026, apresentou o quadro do Sistema Financeiro Nacional no mês de agosto. Para o crédito com recursos livres às famílias, o indicador de inadimplência alcançou 8,0%. O BC informou aumento de 0,2 ponto percentual em relação a julho e de 1,0 ponto percentual em 12 meses.
Ponto percentual é a diferença direta entre duas taxas. Por exemplo, uma taxa que passa de 7,8% para 8,0% sobe 0,2 ponto percentual. Isso é diferente de dizer que cresceu 0,2%: a comparação relativa teria outra conta.
A palavra “agosto” identifica o mês de referência dos saldos, não a quantidade de novos atrasos ocorridos apenas naquele mês. A divulgação foi feita no mês seguinte porque estatísticas de fechamento e consolidação são publicadas com defasagem. Na data deste texto, 17 de outubro, o calendário do BC previa a divulgação da referência setembro para 29 de outubro. Portanto, agosto era a referência mais recente desta série mensal publicada.
Leia a nota completa do Banco Central, publicada em 29 de setembro de 2026.
Como a taxa é calculada
O glossário do BC define inadimplência da carteira como o somatório do saldo das operações de crédito com atraso acima de 90 dias e ainda não baixadas para prejuízo, dividido pelo saldo total de crédito da carteira. Em linguagem simples: o numerador reúne valores de operações que cruzaram o marco de atraso; o denominador reúne os saldos da carteira que está sendo analisada.
Não indica a fração de tomadores que deixou de pagar, nem a fração de famílias com algum atraso.
A taxa também não mede o valor original emprestado, o limite ainda disponível ou o total de parcelas futuras. Ela descreve saldos de crédito em aberto no recorte estatístico.
“Acima de 90 dias” também é um critério específico. Uma parcela vencida há alguns dias, ou uma operação com atraso que ainda não ultrapassou esse marco, não entra no numerador definido pelo indicador de inadimplência. Isso não significa que qualquer atraso menor seja irrelevante para a vida financeira ou para as regras contratuais; significa somente que essa série não o classifica como inadimplência da carteira no cálculo em questão.
A nota explica ainda que as operações consideradas em atraso há mais de 90 dias e já baixadas para prejuízo ficam fora da definição apresentada no glossário. Portanto, a taxa não é um inventário de todas as perdas históricas, nem soma todo atraso desde o primeiro dia. É uma medida padronizada com critérios de prazo e reconhecimento contábil.
Consulte a definição no Glossário de Estatísticas Monetárias e de Crédito do BC.
O que quer dizer “crédito com recursos livres”
O Banco Central descreve operações com recursos livres como empréstimos e financiamentos cujas taxas de juros são pactuadas livremente entre instituição financeira e tomador. No recorte estatístico, esse conjunto não é sinônimo de todo crédito concedido às famílias. Há também carteiras de crédito direcionado, ligadas a regras ou fontes de recursos específicas.
O catálogo de dados abertos do BC para a série 21112 — inadimplência da carteira de crédito com recursos livres, pessoas físicas, total — informa que ela cobre a parcela da carteira livre do Sistema Financeiro Nacional com pelo menos uma parcela atrasada por mais de 90 dias. O catálogo ressalva que não inclui operações referenciadas em taxas regulamentadas, operações vinculadas a recursos do BNDES ou outras lastreadas em recursos compulsórios ou governamentais.
Por isso, antes de comparar taxas, é necessário checar a carteira, o público e o período. Oito por cento numa carteira não pode ser colocado lado a lado com outra taxa como se ambas usassem o mesmo conjunto de operações.
Veja a descrição e os metadados da série 21112 no Portal de Dados Abertos do Banco Central.
Por que aparecem 8%, 6% e 3,6% na mesma divulgação
Os três números citados são úteis justamente porque mostram como a definição do denominador altera o resultado. Em agosto de 2026, a nota do Banco Central apresentou:
- 8,0%: inadimplência do crédito com recursos livres às famílias.
- 6,0%: inadimplência da carteira total de crédito às pessoas físicas, que combina o recorte total e não apenas o crédito livre.
- 3,6%: inadimplência do crédito direcionado às famílias.
Os percentuais não são alternativas para descrever a mesma carteira. O total de pessoas físicas e as famílias aparecem como categorias estatísticas na divulgação e não devem ser tratados como definições intercambiáveis sem conferir a tabela e o conceito usados. O número de 8,0% é o dado adequado para responder à pergunta específica sobre inadimplência do crédito livre às famílias.
A composição das carteiras também ajuda a explicar por que as taxas diferem: modalidades, valores, condições e perfis de operação incluídos em cada grupo não são os mesmos. A diferença, por si só, não revela uma causa isolada. Sem uma análise adicional, não se deve atribuir a variação a juros, cartão, renda, comportamento de um grupo ou política específica.
Agosto não é julho: cuidado com indicadores próximos
Na mesma nota, o endividamento das famílias foi informado em 49,9% e o comprometimento de renda em 28,7%, mas ambos tinham referência a julho de 2026. A taxa de inadimplência de 8,0% tinha referência a agosto. Colocar os três valores numa frase como se fossem um retrato do mesmo mês cria uma comparação temporal incorreta.
Além do mês, cada indicador responde a uma pergunta distinta. Inadimplência da carteira acompanha certos saldos de operações atrasadas. Endividamento relaciona dívidas das famílias com renda acumulada segundo a metodologia do BC. Comprometimento de renda estima a parcela da renda destinada ao serviço da dívida. Um indicador não substitui o outro e não permite inferir automaticamente a situação de um domicílio.
O que o indicador não permite concluir
A taxa agregada é informativa sobre o estado de uma carteira, mas não foi construída para avaliar uma pessoa. Ela não informa quantas famílias têm uma dívida vencida, quantas pessoas deixaram de pagar, quantos CPFs estão registrados em cadastros de crédito ou qual é a chance de uma pessoa específica entrar em atraso. Para essas perguntas seriam necessários dados e conceitos diferentes.
Também não é uma taxa de juros. A palavra “inadimplência” nesse contexto nomeia a proporção de saldos que atende ao critério de atraso, não o custo que será cobrado de uma pessoa. Tampouco significa que todas as operações livres estejam em atraso: na razão hipotética de 8%, a maior parte do saldo permanece fora do numerador, embora o indicador não descreva cada contrato.
O agregado não determina por que houve atraso, se uma instituição aprovou crédito, que produto alguém deveria contratar ou se uma dívida individual pode ser renegociada. Ele não permite prever o futuro do mercado sem outras evidências. A alta de 0,2 ponto percentual no mês mostra movimento estatístico entre referências; sozinha, não prova uma causa nem antecipa o que ocorrerá no período seguinte.
Como ler a próxima atualização
Uma leitura cuidadosa começa por cinco perguntas simples sobre a publicação consultada:
- Qual é a data de publicação e qual mês está sendo medido?
- O dado trata de pessoas físicas, famílias, empresas ou do conjunto do SFN?
- A carteira é de recursos livres, direcionados ou total?
- O indicador é calculado sobre saldos, número de contratos, clientes ou outra unidade?
- Qual prazo de atraso e quais exclusões contábeis entram na definição?
O calendário oficial é outro elemento importante: ele ajuda a identificar se houve nova referência mensal disponível na data em que uma matéria foi publicada. Em 17/10/2026, a página do BC marcava 29/10 para as estatísticas de crédito de setembro. Quando a nova nota sair, a taxa e a interpretação devem ser atualizadas a partir da fonte original, sem supor que o resultado mudou numa direção específica.
Confira o calendário de divulgação estatística do Banco Central.

Publicidade. Critérios do produto são próprios e não decorrem dos dados desta matéria.


